Recomeçar por meio das viagens: quando o luto também pega a estrada
Ao deitar na cama, no final do dia, percebi algo que me surpreendeu: eu não havia pensado na perda durante todo o dia. Eu simplesmente vivi o presente. E foi nesse momento que comecei a entender que o luto não precisa ser vivido apenas no silêncio, na pausa ou na escuridão. Existe um outro caminho possível. E foi através das viagens que eu comecei a descobrir esse caminho.
Você já ouviu falar em grief trip? No meu processo de luto, acabei me deparando com o termo. O conceito traduz o ato de viajar como uma parte possível no processo de elaboração do luto. Uma forma de ressignificar as emoções por meio das viagens, onde cada passo também ajuda a atravessar o luto. Não é sobre fugir da dor. É sobre não ficar parado. É sobre caminhar com ela.
Existe uma ideia muito comum de que o luto precisa ser introspectivo e triste. Enquanto isso, viajar costuma estar associado à diversão, à alegria, ao lazer. Como se fossem opostos. Mas não são. O luto também anda. Ele caminha, pega estrada, muda de paisagem.
Viajar, para mim, sempre foi algo que me fez bem e que busquei estudar os seus benefícios, especialmente, as suas relações com a saúde mental. Em meu processo de luto, vivenciei isso na prática. As viagens se tornaram um ato de amor comigo mesma, uma forma de honrar a vida que continua.
É claro que viajar não apagou a dor. E nem era esse o objetivo. Nas primeiras viagens, após a perda, a saudade e a dor me acompanhavam de forma mais presente. Ainda hoje elas aparecem, com menor frequência e intensidade, mas aparecem. Independente das lembranças, dos momentos em que a saudade apertava e que vinha a vontade de chorar, eu ainda assim pensava que deveria continuar me permitindo e seguindo.
Viajar me trouxe momentos de respiro, momentos em que o peso diminuiu, em que o coração encontrou pausas para continuar. E isso fez uma grande diferença nesse processo. Não significa que não exista dor ou que a saudade desapareça. Mas significa que, mesmo com tudo isso, é possível seguir. Se permitir viver momentos leves não diminui o amor por quem se foi, pelo contrário, pode ser uma forma de honrar tudo o que foi vivido.
Cada pessoa encontra formas próprias de atravessar uma perda. E viajar pode ser, sim, uma forma de atravessar o luto. Conhecer um lugar que quem partiu sonhava conhecer, realizar um plano que ficou pelo caminho, voltar a lugares que marcaram a história ou mesmo se permitir estar em um outro cenário, longe da rotina que, muitas vezes, intensifica a ausência.
Cada vivência pode trazer um novo sentido para a vida e auxiliar no processo de ressignificação da perda. Cada experiência vivida pode ser entendida como uma forma de homenagear a pessoa que partiu ou até mesmo uma forma de manter a conexão, agora transformada em lembranças, em presença de um outro jeito.
O luto não precisa ser um lugar onde você fica. Mas ele pode ser um caminho que você atravessa. E, às vezes, esse caminho tem paisagens novas, horizontes diferentes e descobertas que ajudam a seguir em frente. Porque, no fim, o objetivo não é parar. É continuar.
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| Viajar também é uma forma de continuar. Pôr do sol em Key West, Flórida, Estados Unidos. |



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